Competição amorosa

“Meu coração diz que as pessoas são boas. Minha experiência sugere o contrário.”

A frase acima é do filme “Diamantes de Sangue” com Leonardo Di Caprio. Já vi este filme a algum tempo, mas a frase ficou no meu subconsciente, ressoou com muita verdade e como acredito no ser humano, me incomodou desde então. Demorei, mas finalmente com as Olimpíadas entendi o incomodo.

Em meu texto anterior, falei do jeito brasileiro de ser vira-lata, isto é, como aos poucos estamos criando um pedigree próprio em relação ao mundo. Um pedigree baseado no respeito a diversidade, onde pessoas de qualquer cor, peso, idade, cultura ou outras características tem seu lugar. Somos a somatória de todos os pedigrees, uma missigenização original num mundo em profunda transformação. Isso não quer dizer que não tenhamos dificuldades, mas evoluímos a cada dia nessa salada tropical de convivência que é o Brasil.

Assistindo as Olimpíadas, me veio a frase do filme, e o jeito brasileiro de ser vira-lata. O que as unia? O jeito vira-lata estava escancarado para o mundo, onde um povo com tantas dificuldades foi ordeiro, receptivo e alegremente diferentes, mesmo com eventuais excessos. E a frase? A resposta era a palavra competir.

Sentado no meu sofá, olhando a forma de competir numa olimpíada, percebi que competição é disputada, mas não precisa ser predatória, ela pode ser amorosa. Considerando amor como o desejo altruísta de construção do outro, vemos ela presente nesta competição esportiva. O motivo, é que o esporte em sua essência trabalha superação, responsabilidade, humildade, resiliência, cooperação, e nos esportes coletivos complementaridade, pois só com centro avante ninguém ganha jogo de futebol. Outra reflexão, neste tipo de negócio, pois a Olimpíada é um negócio, o amor inspira e está a favor da melhoria da performance e do resultado. Na relação do atleta com seus técnicos e preparadores, existe o desejo genuíno de construção de algo eficiente e verdadeiro entre eles. Por este motivo, sem amor, sem entrega e confiança não existe medalha de ouro. As Olimpíadas já tiveram seu tempo predador, mas precisou ficar mais emotiva ao longo dos anos, pois com a competição cada vez mais acirrada, só habilidades e competências passaram a não ser suficientes, o coração precisou entrar na equação.

Aos poucos fui percebendo que o motivo daquela frase me parecer verdadeira, foi por ter vivido quase 30 anos no mundo corporativo e empresarial. Este é um mundo que vem mudando, mas que ainda é baseado na competição predatória, uma terra de ninguém. Onde a ganância passa por cima de ética e valores, e o vale tudo da administração por crise, adoece, mata sonhos, e cria devaneios de poder. A competição desta forma não é competição, é guerra, é um vale tudo que não motiva, pelo contrário, desanima, entristece, enfraquece. Mantem o permanente medo de perder o emprego ou o negócio, e afasta o real sentido de cooperar e complementar. A mudança na postura da seleção brasileira masculina de futebol, mostra isso claramente. Nos dois primeiros jogos parecia uma empresa, onde cada um cumpria sua função, mas não tinha alma, e como consequência faltava garra e empenho. Faltava um propósito. Como o que não falta para esses jogadores são recompensas financeiras, vimos que só o dinheiro não era motivação suficiente para ganhar medalha de ouro. Até que fosse mexido no brio dos jogadores, que eles se conectassem com o real sentido da disputa, e inclusive com sua imagem enquanto profissional, as coisas não mudaram. Ficou claro que ganhar é ótimo, porém, mais importante é jogar o jogo. E assim acabou o empurra-empurra de responsabilidades, que vinha levando a empresa seleção brasileira a falência.

Numa olimpíada, você verá politicagens nos bastidores administrativos, mas a verdade dos resultados estará na relação entre equipe técnica e atleta, e no momento da verdade da competição também a torcida. Competições não permitem puxa sacos e articulações escusas, assim como o mercado, isso não traz resultados sustentáveis. Este é o motivo do mundo corporativo e dos negócios estar migrando para um modelo mais amoroso. Antes as ineficiências cabiam nas margens gordas, hoje ou mostra resultado sustentável, ou perde.

O mundo está mudando, e fica mais fácil perceber que as pessoas não parecem boas, pois precisaram criar personagens para sobreviver nas regras da competição predatória. Este modelo de competir cria distorções psíquicas complexas, onde o ter vale muito mais do que o ser. Wall Street e alguns empresários concentradores de mercados estão aí para não nos deixar mentir.

Entendendo que a palavra competir, quer dizer concorrer, ou disputar na busca de um objetivo, o que temos numa competição são rivais, pois rival, também conceituando a palavra, é aquele que disputa com pessoas que pretendem a mesma coisa. No meu sofá vendo a disputa de medalhas, percebi que ainda falta ao mercado o espírito olímpico, entender que mesmo tendo que competir, sejam empresas com produtos e serviços, ou pessoas por cargos, não avançaremos na busca da excelência. Precisamos olhar o outro como rival, e não mais como inimigo.

Seja numa competição esportiva ou em uma empresa, somos atletas da vida, buscando melhorar constantemente nossas habilidades, competências, nossos desejos e anseios, mas precisando também de propósito, inspiração, motivação e objetivos alcançáveis. Precisamos humanizar este mundo ganancioso, omisso, que permite guerras que matam uma criança a cada 3 pessoas em benefício das industrias da morte, e políticos que desviam merenda escolar.

Competir de forma amorosa vai nos permitir produzir mais e melhor, e viver uma vida com mais alegria e comprometimento. Sendo a transformação que queremos ver no mundo, como dizia Gandhi, iremos através do nosso exemplo de humanidade, humanizar o desumano, e com isso espero um dia ver um filme que tenha a seguinte frase: “Meu coração diz que pessoas precisam melhorar a cada dia, mas são boas, e minha experiência sugere que elas só precisam de um ambiente saudável para mostrar isso”. Eu trabalho para oferecer esta oportunidade as pessoas!!!

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