Tudo que é privado, é público!

“O que é meu eu cuido, o que é seu você cuida, e o que é nosso quem cuida?”

O mundo que vivemos, vem praticando cada vez mais o usar em detrimento do ter, isto é, estamos preferindo alugar, licenciar ou aderir, ao invés de adquirir. Também começamos a trocar, e doar aquilo que não usamos, pois pode ser útil a alguém. Esse e outros comportamentos, vem melhorando nossa consciência de consumo, e aos poucos mudando de forma sutil o entendimento do conceito de privado e público.

O conceito de privado se refere ao que é feito com amigos, sigiloso, secreto, e em local restrito, seja uma sala, prédio ou qualquer tipo de propriedade que não seja pública. Público, é o que se realiza na presença de testemunhas, o que está destinado ao povo, a coletividade, o que é de uso de todos. Ligado a estes conceitos, e para dar continuidade a construção do que quero falar, é preciso entender o que é política e governo. Numa visão simplificada, política pode ser definida como a arte de negociação para compatibilizar interesses, e governo, o controle exercido sobre nós mesmos, sobre o outro ou sobre coisas.

Não trazemos nada quando nascemos, nem levamos nada quando morremos. Apenas nos apropriamos de coisas enquanto vivemos, e este entendimento reduzido do que é público e privado, nos faz achar que o que compramos é nosso, mas numa forma mais profunda não é. Não quero destruir o conceito de propriedade privada, pois os radicais de plantam vão querer dizer que sou comunista. Quero dar uma visão mais ampliada ao conceito de privado, daquele sentimento de posse que temos quando adquirimos ou alugamos algo.

Não sou ambientalista, nem participante de nenhuma ONG que protege a natureza, mas tenho bom senso, e venho estudando o assunto da degradação do planeta, e de tudo que está nele a mais de uma década. Como este assunto é apenas o pano de fundo para o que quero falar, apenas cito que, nos últimos 50 anos destruímos mais a natureza do que nos últimos 3000 anos. Evoluímos sim, mas de forma insustentável, e esta conta de destruição não pode cair sobre o progresso, mas sim sobre o modelo que usamos para estes avanços. Não existe progresso sustentável, se pensarmos apenas em soluções inconsequentes de curto prazo, soluções que não levem em conta outros possíveis, ou mesmo prováveis impactos nocivos a médio e longo prazo. Lembrando que estas soluções quase sempre são onerosas e ineficientes. De forma clara, não existe progresso e produção sustentável, num modelo que destrói mares, polui o ar, e deteriora a vida animal e humana. Precisamos ter consciência, que o que fazemos de forma privada, influencia no que é público. Se cair uma bomba atômica no pais ao lado, não tem como não influenciar o meu pais, assim como o comportamento barulhento de alguém vai prejudicar a tranquilidade da vizinhança.

Se quiserem mais informações sobre a destruição do planeta, tenho um workshop de 4 horas para falar sobre isso, mas quero me ater a um entendimento mais sutil do é privado e público. Por exemplo, quando construímos uma casa, numa visão de longo prazo o terreno não é meu, nem do governo, nem de ninguém, pois vou ficar com ele apenas por um tempo até que um novo dono se apresente quando quero vender. Neste caso, o objeto foi apenas momentaneamente meu, mesmo que este momento dure gerações. Em resumo, quando quero comprar, preciso ter a visão que irei usar por um tempo aquele bem, e depois alguém virá cuidar dele dali para frente. Este raciocínio faz ainda mais sentido se ampliarmos a visão no tempo. Este terreno está ali desde que o mundo é mundo, apenas veio sendo usado para diversas funções, mudando de mão em mão ao longo do tempo, num ciclo de usar e repassar. Num planeta de recursos finitos, onde nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, o privado tem que ter uma alma público, e o público uma alma privada. Com essa percepção, uma praça, um ponto de ônibus, uma instalação pública, precisa ser mantida com o cuidado que temos com o que é nosso, pois numa visão ampliada tudo é nosso.

Alguns vão dizer, não adianta porque a maioria não age assim. Porém, o mais importante é sermos exemplo, educando com as próprias atitudes, seja jogando no lixo um papel ou garrafa que alguém jogou na rua, ou auxiliando na manutenção de uma praça “pública”. Se levarmos esta consciência a todas as instancias da vida, tudo vai ficar mais barato, mais bonito e mais duradouro. Teremos que reformar menos, limpar menos, consertar menos, enfim gastar menos para manter seja lá o que for. Vamos aproveitar por mais tempo os recursos. Como mais uma consequência positiva, teremos ambientes saudáveis e agradáveis, e melhoraria da saúde individual e coletiva. Precisamos acordar e mudar, pois as vezes parece que as pessoas acham que se as coisas pararem de funcionar poderemos mudar de planeta.

Pode parecer bobagem o que estou dizendo, mas a solução de amanhã precisa ser pensada hoje, e neste caso iniciada ontem, pois já estamos muito atrasados. Seja na natureza, nas empresas ou na política, precisamos nos mobilizar, e desenvolver uma cultura humanística e solidária. Precisamos repensar nosso sistema educacional incluindo conteúdos ligados a comportamentos, diversidade e responsabilidade social, mas principalmente educar para o coletivo, para a importância de sentir o público como privado, mas não de forma individualista, e sim altruísta. Se queremos uma política com políticos realmente intermediando interesses comuns, temos que fazer política pública responsável nas nossas casas, bairros, clubes e empresas. Precisamos governar nossa vida, integrada a governança pública, e repassar isso a nossas crianças. Lembre-se que todo político corrupto já foi uma criança inocente. Por isso precisamos governar nos mesmo, sermos referência que valham a pena serem seguidas, ou não teremos governos municipais, estaduais, federais e mundiais inspiradores como hoje. É hora de arregaçar as mangas e começar a construir um mundo novo já !

A propriedade privada vai continuar a existir, pois é a forma de desenvolvermos nossa individualidade, e a partir dela a interação com o coletivo, ou a chamada convivência. Não podemos mais queimar recursos bons com atitudes ruins. No livro “economia da consciência”, o físico Amit Goswami mostra como podemos desenvolver uma economia mais humana, lucrativa e com menos perdas. Tenho vários conceitos que podem auxiliar a construir uma sociedade mais justa, e um deles é o INC, que quer dizer “Índice do Nível de Convivência”. Ele poderá ser a base futura para selecionarmos sócios, parceiros, profissionais e até amigos, pois através da transparência que cada vez mais as ferramentas tecnológicas possibilitam, este índice mostrará nossos valores éticos, comportamento, atitudes, amplitude da rede de relacionamento e participação na vida pública, enfim, mostrará o legado já construído.

O fato é que não podemos mais adiar, o tempo está cada vez mais curto. Precisamos fazer hoje, aquilo que podemos, com aquilo que temos. Sou otimista, mas é hora de agirmos, pois na situação que estamos, o bom é melhor do que o ótimo. Governe sua vida, com políticas privadas com alma e amplitude pública, e teremos chance de construir um mundo melhor.

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